Um sujeito não é o seu corpo, ele o tem. E ter um corpo não é, absolutamente, a mesma coisa que limitar-se a ser um corpo. Entretanto aceder a um corpo próprio não é algo que nos seja assegurado pelo nascimento. O corpo não é um dado da natureza. Ele é um efeito da linguagem, cuja entrada entalha a carne para aí fazer corpo, ao preço de desnaturá-lo. Abrir buracos onde se alojará o gozo, mas sempre marcado por uma perda irredutível.
Ter um corpo afinal, é servir-se dele. Gozar com ele. Mas, como o gozo vem ao corpo? E de que gozo se trata quando o sujeito renuncia a uma parte da sua liberdade, em troca do seu sintoma?
Dizer que a linguagem se corporifica, é então dizer que o corpo padece dos seus efeitos? Que o modo como somos afetados por ela sela o nosso destino?
Lacan afirma que há um corpo do simbólico, que é “alíngua”, um corpo do imaginário, que não se limita à imagem que temos do nosso corpo, o modo como o percebemos, e do qual nada saberíamos se não fosse isolado pela linguagem. E há um corpo do real, cuja ex-sistência se distingue de tudo que conhecemos como organismo. Não há corpo sem os três. E todo sofrimento, toda paralisia, assim como todo gozo, e toda criação de que somos capazes, depende do modo como eles se arranjam em nós.
Angela Valore - presidente da Letra - Associação de Psicanálise